Na última terça-feira (11), a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) realizou, em Cruz das Almas, a abertura da II Semana do Hip Hop da UFRB, promovida pelo programa de extensão Educa Rap. A mesa de abertura reuniu a Magnífica Reitora Prof.ª Georgina Gonçalves dos Santos, o Pró-Reitor de Extensão e Cultura Prof. Danillo Silva Barata, o Secretário de Juventude da Bahia, Nivaldo Millet, a Diretora-Geral da FUNCEB, Sara Prado, e a equipe do Educa Rap.

O evento teve como ponto alto a palestra do rapper, escritor e ativista MV Bill, mediada pelo professor e ex-reitor da UFRB Paulo Gabriel, que conduziu uma reflexão potente sobre juventude negra, racismo, políticas culturais e o Hip Hop como tecnologia social de transformação.

A atividade contou também com a presença do professor e pesquisador Richard Santos, coordenador do grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Amigo e parceiro de longa data de MV Bill, Richard participou da mesa de abertura e destacou o significado histórico do momento, não apenas pela presença do rapper, mas também pela coincidência simbólica de, naquela mesma noite, a Câmara dos Deputados ter aprovado o Projeto de Lei 5.660/2023, que institui o Dia Nacional do Hip Hop (16 de agosto) e a Semana de Valorização da Cultura Hip Hop.

Para Richard, a conquista parlamentar soma-se a uma trajetória de décadas em que o movimento se afirmou como expressão política, educativa e epistemológica. Ele lembrou que o rap sempre denunciou o genocídio da juventude negra e que a própria linha de pesquisa que desenvolve — voltada às “maiorias minorizadas” — nasceu dessa escuta das pedagogias das periferias.

O pesquisador também relembrou que ele e MV Bill integram a primeira geração do rap brasileiro, e juntos fundaram a primeira organização de Hip Hop formalizada com CNPJ no país, ainda nos anos 1990.

“O Hip Hop nos dá caminho, e esse caminho de insurgência e sublevação da ordem é o que faz o Educa Rap estar aqui há seis anos. Acreditar na nossa potência é o que fez nascer o Museu do Hip Hop no Rio Grande do Sul, o primeiro das Américas; é o que faz a UnB reunir hoje o acervo histórico do Hip Hop brasileiro, que será transformado em museu; e é o que fez a Câmara reconhecer a Bancada do Hip Hop. Entrar na universidade é também reformular esses espaços na perspectiva de construir um novo país, uma democracia de alta densidade. O Hip Hop faz a gente acreditar e seguir enquanto potência”, afirmou Richard.

Em sua fala, MV Bill reforçou a dimensão política e pedagógica do rap, contestando as leituras que o consideram apenas uma música “empobrecida”.

“Os críticos de música sempre acharam o rap uma música empobrecida porque a gente consegue fazer um rap em cima do palco sem nenhum instrumento, só com a palma da mão ou o beatbox. Mas ele tem uma lírica única, de muitas palavras por minuto. E para isso é preciso ter recurso. Se você sai da escola cedo, seu vocabulário é pequeno, e a magia do rap é desdobrar o assunto, é tocar nas pessoas”, destacou o rapper.

Bill também abordou o caráter político intrínseco do gênero, lembrando que “não há rap que não fale de política” e que as desigualdades enfrentadas nas periferias são expressões de escolhas políticas e econômicas do país. O artista defendeu ainda o papel das pessoas brancas antirracistas na luta contra o racismo, ressaltando que o lugar de contribuição, não do protagonismo.

“O Brasil é tão hipócrita, que aceita quando uma pessoa branca diz que a sociedade é racista, que a polícia age com recorte racial, mas se eu falo dizem que é mimimi, vitimismo. Então precisamos de pessoas brancas para levar esse pensamento adiante. Mas é muito importante que entendam seu lugar na luta: de contribuição, não de protagonismo. Hoje em dia, por exemplo, tem música que precisa avisar que o hip hop é de origem preta e latina. Se tá precisando lembrar é porque já se esqueceram”, ponderou.

A II Semana do Hip Hop da UFRB reafirma o compromisso da universidade com uma educação pública, antirracista e popular, reconhecendo o Hip Hop como campo de produção de conhecimento e de transformação social. O evento segue com rodas de conversa, apresentações artísticas e oficinas até o fim da semana.

Assista à mesa na íntegra aqui.

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