“O déficit de professores negros precisa ser compensado para que possamos nos desaliançar do racismo institucionalizado na universidade”, afirma coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo.

Na primeira entrevista para o Pensamento Negro Contemporâneo, ouvimos a coordenadora do grupo de pesquisa da UFSB sobre o papel de um grupo de pesquisa para transformar o imaginário social sobre a intelectualidade negra.

Para marcar o início de uma série de publicações no novo site do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (GP-PNC), nada melhor que começar pela voz de quem está na linha de frente dessa construção. Professora, pesquisadora e intelectual de referência, Maria do Carmo Rebouças é uma das coordenadoras do grupo — ao lado do professor Dr. Richard Santos — e tem sido peça-chave na consolidação de um espaço acadêmico voltado para valorizar, revisitar e atualizar o pensamento de intelectuais negros no Brasil e no Sul Global.

Desde 2019, o GP-PNC atua como plataforma de ensino, pesquisa e extensão comprometida com epistemologias negras contemporâneas. Entre colóquios, jornadas e publicações, o grupo não apenas amplia o diálogo sobre relações étnico-raciais, mas também propõe caminhos para descolonizar o saber e amplificar vozes da maioria minorizada.

Nesta entrevista, Maria do Carmo, que é Doutora em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pelo Centro de Estudos Avançados e Multidisciplinares da Universidade de Brasília, fala sobre a origem do GP-PNC, o papel de um grupo de pesquisa para transformar o imaginário social sobre a intelectualidade negra, a coleção de livros Pensamento Negro Contemporâneo — organizada por ela e publicada pelo selo homônimo da Editora Telha —, além de desafios e perspectivas para o futuro da produção acadêmica negra no Brasil.

O GP-PNC nasce em 2019 como um espaço para valorizar e revisitar o pensamento de intelectuais negros no Brasil e no mundo. Qual era a urgência e a intenção central quando o grupo foi criado?

O GP-PNC na Universidade Federal do Sul da Bahia é a continuidade de um trabalho que eu e o Professor Dr. Richard Santos já vinhamos fazendo na Universidade de Brasília. Na UnB, havia uma disciplina chamada Pensamento Negro Contemporâneo criada no âmbito da pró-reitora de extensão, que foi ministrada por vários professores e alunos que posteriormente se destacaram na vida acadêmica e científica, resultado do compromisso com essa disciplina na Universidade, uma vez que essa temática não estava nos currículos de ensino dos cursos. Quando a gente vem para a UFSB, vem junto esse nosso comprometimento político de dar centralidade à questão étnico-racial através da mobilização de autores e autoras negros, de bibliografia produzidas tanto dentro como fora da universidade. E para a gente era natural aproveitar a oportunidade de institucionalizar esse trabalho que vínhamos fazendo em um grupo de pesquisa. Porque assim como em Brasília, aqui na UFSB, em que pese seu compromisso fundante com uma universidade mais popular e democrática, não vemos centralidade na produção intelectual de pessoas negras, nem o cumprimento da Lei 10.639 nos programas dos cursos de graduação e pós-graduação. Desde a criação da universidade, ficamos de fora desse espaço elitizado, branco-cêntrico, racista. Então, a necessidade de criar o grupo foi justamente dar centralidade a essa temática da forma mais comum e ordinária em que isso se realiza na universidade, que é criando um grupo de pesquisa, e de excelência, que articularia ações de pesquisa e extensão como temos feito ao longo dos anos.

Apesar de uma longa tradição de produção intelectual negra, ainda é incomum que a sociedade brasileira associe pessoas negras ao lugar da intelectualidade. O que isso revela sobre nosso imaginário coletivo?

A sociedade brasileira e a universidade constrói, justifica e reforça essa política do silêncio, do apagamento, a injustiça epistêmica. No sentido de primeiro não permitir que as pessoas negras estejam nesse espaço. E, em estando, não dar visibilidade nem conferir caráter científico à sua produção teórica. Hoje, a gente vê um processo de resgate desse pensamento, dessas teorias que foram criadas ao longo do último século. A gente faz um trabalho quase que arqueológico, de buscar, mapear, descobrir e dar visibilidade, porque essas pessoas foram realmente apagadas do processo de construção de conhecimento. Muitas delas, inclusive, anônimas, que a gente ainda não conhece, e que não gozaram da oportunidade de ter um espaço como o Pensamento Negro Contemporâneo, de ter coletivos de professores que também valorizassem a sua produção. Se o racismo está institucionalizado dentro da universidade, então a visibilidade da produção de uma pessoa negra é uma exceção que vai sempre confirmar essa regra da exclusão. O racismo na universidade opera sempre para fazer esse apagamento.

Como um grupo de pesquisa voltado para pesquisadores(as) negros(as) contribui para transformar esse imaginário — e, ao mesmo tempo, para fortalecer a trajetória acadêmica dessas pessoas dentro da universidade?

O grupo de pesquisa acaba sendo também um coletivo, não é somente um grupo que produz cientificamente, sendo um dos maiores da nossa universidade, mas é um grupo onde a gente também procura orientar os nossos discentes e colegas pesquisadores na sua trajetória pedagógica, iniciação científica, mestrado e doutorado. Apresentar para eles esse trabalho já sistematizado, já discutido desses pensadores e pensadoras negras nas diversas áreas do conhecimento, e também um espaço de afeto e fortalecimento, de troca nesse ambiente que é tão inóspito, tão doentio pra gente. Enquanto pessoas negras na universidade, tanto docente como discente, vivemos no dia a dia essas microagressões veladas, e que revelam o racismo a que estamos expostos. Então, são alunos que, por exemplo, estão em salas de aula com professores que se dizem progressistas, mas que quando você apresenta um estudo com determinados autores, não aceita. Ou então orientadores que não aceitam o recorte da sua pesquisa, que questionam sua competência, e fazem isso de forma forjada em uma pseudo-neutralidade, e que no fundo esconde esse caráter discriminatório. Então o grupo de pesquisa, para além de se dedicar à pesquisa em si, também é esse espaço de troca, afeto, pertencimento, articulação institucional para outros tipos de projeto, como atuação no território. 

Você organiza, junto à Editora Telha, a Coleção Pensamento Negro Contemporâneo. Qual é a proposta dessa coleção e como ela dialoga com a missão do grupo?

O Selo nada mais é do que a institucionalização de um espaço de publicação acadêmica negra. Enquanto pessoas negras, temos que aproveitar todas as possibilidades de enquadramento institucional da nossa temática, do nosso estar em determinados ambientes. Então, já que a gente tem dificuldade de publicar em editoras, criamos uma editora. Foi assim que nasceu a ideia. É aproveitar um capital político, pessoal e profissional que tanto eu quando o Richard temos, para fazer parceria com uma editora, e através dessa parceria fomentar, produzir e publicar estudos, pesquisas, feito por pessoas negras de dentro e de fora da academia, para que a gente tivesse esse espaço institucional também de divulgação da nossa pesquisa.

O GP-PNC combina ensino, pesquisa e extensão, promovendo eventos como o Colóquio de Pesquisa Negra Contemporânea e a Jornada do Novembro Negro. Como vocês pensam a relação entre produção acadêmica e transformação social?

No nosso grupo, a gente entende que a pesquisa anda junto com a extensão e com o ensino e também com a vertente cultural. Eles todos são indissociáveis, e a universidade está no território para produzir saber junto com o território, e para seu benefício, não sobre o território. Então, não tem sentido fazer nenhum tipo de produção científica que não contribua para o desenvolvimento do território onde estamos enquanto universidade. Por isso sempre atuamos de maneira articulada. Por exemplo, temos um programa de extensão, Jornada do Novembro Negro, é dentro dele que a gente tem um colóquio de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Através do programa de extensão, a gente também faz muitos cursos curtos de formação e capacitação para professores da rede de ensino básico aqui no nosso território. Isso se articula com o ensino. Tudo que a gente faz é no sentido de fortalecer a temática étnico-racial em todos os campos da ciência, de fazer isso também para o território, e de dar visibilidade à produção de intelectuais negros e negras.

O conceito de “Maioria Minorizada”, desenvolvido pelo professor Richard Santos, é uma marca do grupo. Como ele se conecta com o trabalho de vocês e com o momento atual das discussões sobre raça no Brasil?

O trabalho desenvolvido pelo professor Richard Santos é um exemplo primeiro da qualidade, da excelência da pesquisa que a gente vem realizando, e sobre a importância de dar visibilidade a nossas teorias, as categorias que a gente cria, mobiliza e trabalha. Então, a maioria minorizada é uma categoria que dialoga muito com a realidade brasileira. No GP-PNC, a gente vem debatendo muito o fato de que no Brasil a gente discute a discriminação racial muito através da chave do racismo, e pouco através da chave da branquitude. E a gente produz pouco ainda a partir de chaves e de categorias pensadas a partir da própria realidade brasileira. Então, se a gente for pensar em racismo estrutural, a gente está olhando Estados Unidos e mesmo branquitude. A gente está olhando para categorias pensadas a partir daquela realidade, não que não seja possível pensar o Brasil também a partir dessas categorias, e a gente tem vários autores e autoras fazendo isso. Mas eu credito ao trabalho de Richard, sobre maioria minorizada, essa ideia de inovar e pensar a desigualdade étnico-racial no Brasil a partir de uma categoria que é tão óbvia e que a gente não fala dela. A gente entende a minoria, do ponto de vista da ciência política, como um grupo social, e ele entende isso também, mas é uma minoria que é maioria do ponto de vista de falta de acesso a direitos e fluição de bens e de serviços. Então, eu acho que Richard consegue trazer para o debate de novo a ideia dessa maioria minorizada, dessa maioria de negros, e de qualificar o debate nacional e democrático a partir dessa chave. É uma categoria que está aí no mundo, precisa ser estudada, mobilizada, criticada, para que avance e possa ser utilizada para entender a realidade brasileira. E para a gente é um orgulho saber que essa produção teórica nasceu no âmbito de discussão do GP-PNC.

Quais são, hoje, os maiores desafios para consolidar epistemologias negras contemporâneas no meio acadêmico brasileiro — e quais são as próximas metas do GP-PNC para enfrentá-los?

Olha, os desafios são os de sempre, de centralizar a temática racial ou o pensamento negro, não necessariamente a temática racial, porque inclusive essa é uma questão que é importante centralizar, que nós negros nem sempre estamos estudando a questão racial. Claro que ela nos atravessa e não podemos deixar de ver as coisas através dessa lente, mas nos nos dedicamos a todo tipo de pesquisa. Então, o GP-PNC visa dar visibilidade à nossa produção intelectual e não somente denunciar a nossa ausência e denunciar o racismo. É pra dar visibilidade ao que a gente produz e a gente produz em todos os campos da ciência. Então, entre os desafios para o futuro, está trazer mais e mais pessoas que se alinhem e produzam de acordo com as nossas linhas de pesquisa. Eu, por exemplo, trabalho na área de Direitos Humanos, Direito Constitucional e Cooperação Sul-Sul, Richard na área de ciências sociais e comunicação, outras colegas na área de Direito, etc. Então, a importância de estar no grupo é dar visibilidade ao que nós, enquanto pessoas negras, estamos produzindo. E nem sempre essa produção vai estar falando, ou denunciando, ou estudando o racismo, em que pese, sermos sempre convocados a falar sobre isso, porque tem pouca gente falando. Mas para que isso seja realmente transformador, a gente precisa ter mais alunos negros na pós-graduação, e mais formas para garantir suas permanências. Nós precisamos ter uma política de ação afirmativa na carreira de professor do Magistério Superior efetiva e eficaz, para que a gente mude a paisagem, que continua sendo de maioria branca e de homens na universidade. Nós vemos, por um lado, uma graduação aumentando o número de alunos e alunas negras, não vemos professores e professoras negras que nos entendem, e têm interesse de orientar nossas pesquisas. Esse déficit ainda precisa ser compensado para que possamos nos desaliançar desse racismo institucionalizado na universidade.

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