Pensamento Negro Contemporâneo https://pensamentonegro.com.br Meu site Thu, 28 May 2026 22:15:26 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://pensamentonegro.com.br/wp-content/uploads/2025/02/cropped-LOGO-_-GP-PNC-_-5-32x32.png Pensamento Negro Contemporâneo https://pensamentonegro.com.br 32 32 GP-PNC fortalece presença internacional em agenda estratégica sobre África e diáspora no Festival Akwaaba https://pensamentonegro.com.br/2026/05/28/gp-pnc-fortalece-presenca-internacional-em-agenda-estrategica-sobre-africa-e-diaspora-no-festival-akwaaba/ https://pensamentonegro.com.br/2026/05/28/gp-pnc-fortalece-presenca-internacional-em-agenda-estrategica-sobre-africa-e-diaspora-no-festival-akwaaba/#respond Thu, 28 May 2026 18:08:09 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2981

GP-PNC fortalece presença internacional em agenda estratégica sobre África e diáspora no Festival Akwaaba

 

O Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (GP-PNC/UFSB) ampliou sua inserção internacional nas relações entre Brasil e África a partir da participação de seu coordenador, o professor e pesquisador Richard Santos, no Festival Akwaaba, realizado em São Paulo e promovido pela Fundação Cultural Palmares. O evento reuniu representantes diplomáticos, intelectuais, gestores públicos, artistas, pesquisadores, lideranças históricas do movimento negro e representantes da diáspora africana em torno dos debates sobre pan-africanismo, reparações, diplomacia cultural, memória e cooperação Sul-Sul.

 

A participação do GP-PNC no Festival Akwaaba consolida a crescente projeção internacional do grupo de pesquisa no campo dos estudos afro-diaspóricos, das relações África-Brasil e das discussões contemporâneas sobre soberania, desenvolvimento e justiça racial. O festival ocorreu em um momento particularmente estratégico para o fortalecimento das agendas pan-africanistas internacionais, dialogando diretamente com os debates impulsionados pela União Africana no contexto da Década das Raízes Africanas e da Diáspora Africana (2021-2031) e das articulações internacionais vinculadas ao 9º Congresso Pan-Africano de Lomé.

 

Richard Santos participou da abertura oficial do Festival Akwaaba ao lado de importantes autoridades e referências históricas das lutas negras brasileiras, entre elas o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues; o jornalista e conselheiro do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, Maurício Pestana; representantes do Ministério das Relações Exteriores; e integrantes do Ministério da Igualdade Racial. A abertura do evento reafirmou a centralidade da cultura afro-brasileira e das conexões afro-diaspóricas na construção de novas agendas políticas e diplomáticas para o Sul Global.

 

Além da participação institucional na abertura, Richard Santos integrou o painel “Políticas na Diáspora Africana, Conexões, Reparações, Restituições”, realizado no Dia da África — ou, como destacou durante sua intervenção, no “Dia das Áfricas”, reconhecendo a pluralidade histórica, cultural e civilizatória das experiências africanas e afro-diaspóricas. A mesa reuniu importantes referências do movimento negro brasileiro, entre elas Gilberto Leal, Isaura Genoveva, Samuel Azevedo e Raimundo Bujão.

 

Durante sua fala, o coordenador do GP-PNC abordou os desafios contemporâneos do pan-africanismo e os processos de reorganização geopolítica em curso no continente africano e em suas diásporas. A apresentação dialogou com temas como a Conferência Internacional sobre os Crimes do Colonialismo na África, realizada em Argel, a Declaração de Argel, os debates preparatórios do Congresso Pan-Africano de Lomé e as transformações políticas recentes em países como Gana, Nigéria, Angola, Burkina Faso, Mali e Níger.

 

Richard Santos também apresentou o conceito de “economia da reparação”, desenvolvido em suas pesquisas, compreendendo as reparações não apenas como reconhecimento moral da violência colonial, mas como estratégia de reorganização econômica, diplomática, tecnológica e cultural entre África e diáspora africana. A abordagem destacou a necessidade de fortalecimento das relações Sul-Sul, da circulação internacional de conhecimento afro-diaspórico, da soberania tecnológica e da redistribuição global de poder.

 

A presença do GP-PNC no Festival Akwaaba reforça a consolidação do grupo enquanto espaço estratégico de produção intelectual, articulação acadêmica e formulação política no campo do pensamento negro contemporâneo. Nos últimos anos, o grupo vem ampliando suas conexões internacionais através de pesquisas, publicações, seminários, cooperações institucionais e participação em agendas internacionais relacionadas ao pan-africanismo, às relações raciais e à justiça global.

 

O Festival Akwaaba também evidenciou o crescente reconhecimento da Bahia e do Brasil como territórios estratégicos nas articulações entre África e diáspora. Esse movimento dialoga diretamente com a realização da Conferência da Diáspora Africana em Salvador, em 2024, evento que consolidou a capital baiana como importante polo internacional das discussões afro-diaspóricas contemporâneas.

 

Segundo Richard Santos, “talvez estejamos assistindo ao momento histórico em que África e diáspora deixam de ocupar apenas o lugar de territórios marcados pela extração colonial e passam a se constituir como sujeitos ativos da reorganização do mundo multipolar”.

 

A íntegra da participação do coordenador do GP-PNC no Festival Akwaaba será disponibilizada em breve nas plataformas do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo.

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PNC Retoma os Trabalhos em 2026 https://pensamentonegro.com.br/2026/03/18/professor-richard-santos-participa-da-reuniao-inaugural-do-comite-internacional-de-acompanhamento-das-recomendacoes-do-9o-congresso-pan-africano/ https://pensamentonegro.com.br/2026/03/18/professor-richard-santos-participa-da-reuniao-inaugural-do-comite-internacional-de-acompanhamento-das-recomendacoes-do-9o-congresso-pan-africano/#respond Wed, 18 Mar 2026 19:40:58 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2957

PNC Retoma os Trabalhos em 2026

 

Na última quinta-feira, 11/03, o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo retornou às atividades com a presença de novos participantes e novas ideias.

O intuito da reunião foi planejar os próximos passos do coletivo para o ano de 2026, pensando em potencializar ainda mais epistemologias negras, ações em ensino, pesquisa e extensão.

Durante o encontro, também foram compartilhadas experiências, interesses de pesquisa e possibilidades de articulação entre os integrantes, fortalecendo o caráter coletivo e colaborativo do grupo. Além disso, discutiram-se ideias para eventos, grupos de leitura e produções que dialoguem com as demandas contemporâneas e com o território.

O momento marcou não apenas a retomada das atividades do GP-PNC, mas também a reafirmação do compromisso com a construção de saberes críticos e com a valorização das produções intelectuais negras no território.

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Professor Richard Santos participa da reunião inaugural do Comitê Internacional de Acompanhamento das Recomendações do 9º Congresso Pan-Africano https://pensamentonegro.com.br/2026/03/14/pesquisadores-do-grupo-de-pesquisa-pensamento-negro-contemporaneo-da-ufsb-contribuem-para-negociacoes-da-onu-sobre-direitos-das-pessoas-afprofessor-richard-santos-participa-da-reuniao-inaugural-do-com/ https://pensamentonegro.com.br/2026/03/14/pesquisadores-do-grupo-de-pesquisa-pensamento-negro-contemporaneo-da-ufsb-contribuem-para-negociacoes-da-onu-sobre-direitos-das-pessoas-afprofessor-richard-santos-participa-da-reuniao-inaugural-do-com/#respond Sat, 14 Mar 2026 14:55:23 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2946

Professor Richard Santos participa da reunião inaugural do Comitê Internacional de Acompanhamento das Recomendações do 9º Congresso Pan-Africano

 

O professor Richard Santos, docente da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e coordenador do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, participou no último dia 13 de março de 2026 da reunião inaugural do Comitê de Acompanhamento da Implementação das Recomendações do 9º Congresso Pan-Africano, instância internacional criada para monitorar e impulsionar a implementação das resoluções aprovadas durante o congresso realizado em dezembro de 2025, em Lomé, capital do Togo.

O comitê é liderado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Africana do Togo, Prof. Robert Dussey, que conduziu a reunião de instalação do grupo, reunindo intelectuais, lideranças políticas e ativistas de diferentes países africanos e da diáspora. Ao todo, 15 membros compõem o Comitê de Monitoramento, responsável por acompanhar a implementação das recomendações contidas na Declaração de Lomé, documento que orienta uma nova etapa de cooperação panafricanista entre o continente africano e suas diásporas globais.

Durante o encontro foram discutidos temas centrais para a agenda contemporânea do pan-africanismo, incluindo os mecanismos institucionais de acompanhamento das recomendações do congresso, estratégias de cooperação entre governos, universidades e organizações da sociedade civil, bem como iniciativas voltadas ao fortalecimento da diplomacia cultural, da integração intelectual entre África e diásporas e da construção de novas formas de cooperação Sul-Sul.

Em sua intervenção, o professor Richard Santos destacou a importância da participação ativa da diáspora africana nas Américas nesse processo. Falando a partir do Brasil e, em particular, da Bahia — um dos territórios afro-diaspóricos mais significativos do mundo —, o pesquisador enfatizou que a implementação das recomendações do Congresso representa uma oportunidade histórica para aprofundar as conexões intelectuais, culturais e políticas entre África e América Latina.

Segundo o professor, a renovação do pan-africanismo no século XXI deve ser compreendida também como uma estratégia geopolítica e civilizacional para o Sul Global, capaz de articular cooperação cultural, produção de conhecimento e inovação a partir das experiências históricas compartilhadas entre o continente africano e suas diásporas. Nesse sentido, ressaltou que o Brasil, e especialmente a Bahia, constituem espaços privilegiados para o fortalecimento dessas pontes intercontinentais.

O docente brasileiro também manifestou apoio à ampliação da articulação institucional entre o Comitê e a União Africana, reforçando a importância de consolidar mecanismos de cooperação que integrem governos, instituições acadêmicas e redes culturais africanas e afrodiaspóricas.

Do continente americano participaram da reunião, além do professor Richard Santos, a ex-vice-presidenta da Costa Rica, Epsy Campbell Barr — importante liderança política do Caribe e da diáspora africana nas Américas — e Vanda Menezes, integrante da Rede de Mulheres Negras de Alagoas, organização que atua na promoção de direitos e na articulação política das mulheres negras no Brasil.

Do lado africano, além da representação institucional do governo do Togo, participaram diversos intelectuais e ativistas de diferentes países do continente. Entre eles destaca-se a presença da Dra. Naledi Pandor, da Nelson Mandela Foundation, da África do Sul, ex-Ministra das Relações Internacionais e Cooperação daquele país e uma das mais respeitadas lideranças intelectuais e diplomáticas do continente. Também integra o comitê o Prof. Franklin Nyamsi, filósofo e ensaísta nascido em Camarões, professor de filosofia política formado na tradição acadêmica francesa e conhecido por sua atuação nos debates contemporâneos sobre soberania africana, pensamento panafricanista e relações internacionais.

Ao final da reunião, ficou definido que o Comitê se reunirá ordinariamente quatro vezes ao ano, podendo realizar reuniões extraordinárias sempre que convocadas por seus membros ou pela coordenação do grupo.

Entre as ideias debatidas durante o encontro destacou-se ainda a proposta de criação de um Ano Novo Africano e Afrodiaspórico, uma iniciativa simbólica e política destinada a afirmar a autonomia civilizacional africana e a fortalecer os laços culturais entre o continente e suas diásporas globais. A proposta busca construir uma referência temporal própria, à semelhança de outras tradições civilizacionais, como o Ano Novo Chinês ou o Nowruz persa, contribuindo para reforçar a identidade cultural e histórica do mundo africano.

Para o professor Richard Santos, essa proposta representa um passo importante na construção de uma nova imaginação panafricanista global, capaz de articular África e diásporas em torno de um projeto comum de cooperação, memória histórica e desenvolvimento compartilhado.

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Pesquisadores do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo da UFSB contribuem para negociações da ONU sobre Direitos das Pessoas Afrodescendentes e para o Monitoramento de Compromissos Panafricanos da União Africana https://pensamentonegro.com.br/2026/02/06/pesquisadores-do-grupo-de-pesquisa-pensamento-negro-contemporaneo-da-ufsb-contribuem-para-negociacoes-da-onu-sobre-direitos-das-pessoas-afrodescendentes-e-para-o-monitoramento-de-compromissos-panafric/ https://pensamentonegro.com.br/2026/02/06/pesquisadores-do-grupo-de-pesquisa-pensamento-negro-contemporaneo-da-ufsb-contribuem-para-negociacoes-da-onu-sobre-direitos-das-pessoas-afrodescendentes-e-para-o-monitoramento-de-compromissos-panafric/#respond Fri, 06 Feb 2026 06:00:21 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2936

Por Maria do Carmo Rebouças*

A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), por meio do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo e do Observatório ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial coordenado pela Profa. Maria do Carmo Rebouças dos Santos e pelo Prof. Richard Santos, esteve representada, nesta semana, em um dos mais importantes espaços multilaterais das Nações Unidas voltados ao enfrentamento do racismo e à promoção da justiça racial em escala global. A Profa. Maria do Carmo participou da abertura da 25ª sessão do Grupo de Trabalho Intergovernamental sobre a Implementação Efetiva da Declaração e do Programa de Ação de Durban. O Grupo de Trabalho tem como uma de suas atribuições coordenar a elaboração da Declaração das Nações Unidas sobre o respeito, a proteção e a eficácia dos direitos humanos das pessoas afrodescendentes.

Na abertura da sessão, em sua fala para os Estados-parte, a profa. Maria do Carmo destacou “a centralidade desse mecanismo da ONU como o espaço estratégico para a negociação da futura Declaração sobre os direitos das pessoas afrodescendentes, afirmando que o instrumento representa um passo normativo essencial para fortalecer o sistema internacional de direitos humanos. A professora destacou que a Declaração busca conferir coerência normativa e força jurídica a compromissos já assumidos no âmbito da Declaração de Durban, das Décadas Internacionais das Pessoas Afrodescendentes e de outros instrumentos das Nações Unidas, portanto, avançar na negociação da futura Declaração é fundamental para que o combate ao racismo se traduza em transformações estruturais duradouras, promovendo igualdade substantiva, justiça racial e democracias verdadeiramente inclusivas”.

Os professores também participaram do 9º Congresso Pan-Africano, em Lomé, no Togo, em dezembro de 2025, tendo o prof. Richard Santos sido um dos relatores do Conferência da Diáspora Africana nas Américas, realizada em Salvador, Bahia, em agosto de 2024. Recentemente, o referido professor foi indicado pela União Africana compor o Comitê Responsável pelo Acompanhamento da Implementação das Recomendações e Decisões do 9º Congresso Pan-Africano.

A Declaração Final do 9º Congresso, conhecida como Carta de Lomé, reafirma o panafricanismo como marco estratégico da emancipação africana no século XXI. O documento convoca os Estados africanos e as nações que abrigam populações afrodescendentes a formarem uma frente unificada em torno da reforma das instituições multilaterais, da luta por reparações e da construção de um desenvolvimento autocentrado e endógeno. A Carta reconhece explicitamente os crimes históricos da escravidão, do tráfico transatlântico, da colonização e do apartheid, e afirma a justiça reparatória como fundamento incontornável da ordem internacional que se deseja construir.

Em sua visita a Lomé, os pesquisadores realizaram reunião de trabalho com o Vice-Reitor e com o Diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Lomé. Nessa oportunidade eles apresentaram o trabalho desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa, conheceram as pesquisas e cursos de graduação e pós-graduação da universidade e se comprometeram a realizar novos encontros para desenvolver um plano de trabalho conjunto em áreas de interesse comum para subsidiar um futuro acordo de cooperação entre as duas universidades.

A atuação internacional dos professores dialoga diretamente com as pesquisas desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, que tem como uma de suas referências centrais a reflexão crítica sobre racismo sistêmico, panafricanismo, descolonização e soberania política no século XXI.

A atuação da Universidade nesses espaços internacionais evidencia que a pesquisa crítica produzida no Sul global é parte constitutiva dos debates que moldam o futuro do sistema internacional de direitos humanos.

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Lomé, pan-africanismo em disputa e o lugar do Brasil https://pensamentonegro.com.br/2025/12/19/lome-pan-africanismo-em-disputa-e-o-lugar-do-brasil/ https://pensamentonegro.com.br/2025/12/19/lome-pan-africanismo-em-disputa-e-o-lugar-do-brasil/#respond Fri, 19 Dec 2025 20:27:51 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2913

Por Richard Santos*

Escrevo este artigo a partir de Lomé, mas também a partir do Rio de Janeiro, da Bahia, de Salvador, do Recôncavo, dos encontros que nos trouxeram até aqui e das expectativas que, mais uma vez, recaem sobre o Brasil quando o assunto é pan-africanismo, diáspora africana e justiça histórica.

Minha ida ao 9º Congresso Pan Africano, realizado entre 8 e 12 de dezembro de 2025, foi acompanhada da professora Maria do Carmo Rebouças, com quem divido a Coordenação do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, do selo editorial de mesmo nome que mantemos em parceria com a editora Telha, e do esforço coletivo de escrita de artigos, análises e intervenções políticas a partir do Sul global. 

Nossa presença em Lomé não foi episódica nem protocolar. Ela se inscreve em um processo longo, denso e atravessado por disputas, que envolve a reconstrução contemporânea do pan-africanismo, o reconhecimento da diáspora como sexta região da União Africana e a luta por reparações, restituições e reformas profundas nas instituições multilaterais.

O 9º Congresso não nasceu pronto. Ele foi sendo construído ao longo de anos, com etapas preparatórias, encontros regionais e, de forma muito significativa, com a Conferência da Diáspora Africana nas Américas, realizada em Salvador, em agosto de 2024 sob a liderança da Secretária Ângela Guimarães, a frente da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia (Sepromi). 

É impossível compreender Lomé sem rememorar a Bahia. A escolha de Salvador como sede da Conferência da Diáspora não foi apenas simbólica. Ela reconheceu o Brasil como território estratégico da diáspora africana, país que concentra a maior população negra fora do continente e que, ao mesmo tempo, carrega as marcas profundas do colonialismo, da escravidão e do racismo estrutural. A Conferência foi concebida como etapa oficial preparatória do Congresso Pan Africano, inserida no marco institucional da Década das Raízes Africanas e da Diáspora Africana, proclamada pela União Africana para o período de 2021 a 2031. 

Em Salvador, reuniram-se intelectuais, lideranças de movimentos negros, representantes de comunidades tradicionais, artistas, gestores públicos e delegações governamentais de países africanos e das Américas. O encontro foi organizado em torno de quatro eixos centrais, pan-africanismo, memória, reconstrução e reparação e restituição. Não se tratava apenas de debater conceitos, mas de produzir uma Carta de Recomendações que expressasse a posição política da diáspora africana nas Américas e que fosse incorporada aos debates do 9º Congresso. 

A Bahia, mais uma vez, cumpriu um papel histórico. Não apenas por sua ancestralidade africana viva, mas por sua trajetória como território de encontros panafricanos. Salvador já havia sediado a Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, em 2006, e outros eventos internacionais que consolidaram a cidade como espaço de articulação entre África e diásporas. Em 2024, a Conferência reafirmou essa vocação e produziu um documento robusto, que dialoga diretamente com os fundamentos históricos do pan-africanismo e com os desafios do século 21. 

Esses fundamentos remontam ao início do século 20, quando o pan-africanismo se afirmou como movimento político e intelectual voltado à unidade dos povos africanos e afrodescendentes frente à escravidão, ao colonialismo e ao racismo. Dos primeiros passos com o etiopianismo, aos congressos organizados por Henry Silvester-Williams e W E B Du Bois, em 1900, passando pelo Congresso de Manchester, em 1945, até os processos de independência africana liderados por figuras como Amílcar Cabral e Kwame Nkrumah, o pan africanismo sempre articulou pensamento e ação, denúncia e projeto. 

Carta de Lomé

O 9º Congresso Pan Africano de Lomé se insere nessa continuidade histórica, mas também responde a um contexto radicalmente distinto. Vivemos um mundo marcado por profundas desigualdades, pela financeirização da vida, por novas formas de colonialismo econômico e tecnológico e por uma crise evidente das instituições multilaterais criadas no pós Segunda Guerra.

A África e suas diásporas continuam sub representadas nos espaços de decisão global, enquanto seguem sendo afetadas de forma desproporcional pelas crises climáticas, sanitárias e econômicas. 

Foi nesse cenário que o Togo apresentou, no âmbito da União Africana, a proposta de realização do 9º Congresso e de instituição da Década das Raízes Africanas e da Diáspora Africana. A iniciativa togolesa reconhece que não há futuro para o continente sem o engajamento pleno de suas diásporas e que a luta por soberania passa, necessariamente, pela reforma das instituições multilaterais e pelo fortalecimento de alianças Sul Sul. 

O tema do Congresso, Renovação do pan africanismo e o papel da África na reforma das instituições multilaterais, mobilizar recursos e reinventar se para agir, expressa essa ambição. Lomé foi pensada como espaço de síntese, de escuta e de formulação política. Ao longo de seis pré congressos regionais, realizados em diferentes países africanos e na diáspora, foram sendo acumuladas contribuições que desembocaram na Declaração Final, conhecida como Carta de Lomé. 

A Carta de Lomé reafirma o pan-africanismo como marco estratégico da unidade e da emancipação dos povos africanos e afrodescendentes. Ela destaca a centralidade dos valores endógenos africanos, como a filosofia Ubuntu, e defende a construção de uma frente pan-africana que articule Estados africanos, nações com populações afrodescendentes, a Comunidade do Caribe, a CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] e outras instâncias regionais. 

Entre seus pontos centrais, a Carta afirma a luta por reparações como fundamento incontornável da justiça histórica. Reconhece os crimes da escravidão, do tráfico transatlântico, da colonização e do apartheid como crimes contra a humanidade e convoca os Estados a adotarem posições comuns em favor da reparação, da restituição de bens culturais e da implementação plena do Programa de Ação de Durban. 

O documento também propõe a criação de um Observatório Pan-Africano da Justiça Reparadora e da Luta contra o Racismo, algo como temos no Brasil, o Observatório do ODS 18, a correção das representações cartográficas coloniais, como a projeção de Mercator, e a promoção de uma reforma profunda do sistema multilateral, incluindo a ampliação da representação africana no Conselho de Segurança da ONU. 

Outro eixo fundamental da Carta de Lomé é a descolonização do espírito. O texto convoca os Estados e as instituições educacionais a promoverem uma educação crítica, enraizada nos saberes africanos, nas línguas, nas filosofias e nas expressões culturais do continente e da diáspora. Defende a valorização das mulheres, da juventude e dos movimentos sociais como sujeitos centrais do pan-africanismo contemporâneo. 

No campo do desenvolvimento, a Carta propõe um modelo autocentrado e endógeno, baseado na soberania sobre os recursos estratégicos, na industrialização, na cooperação Sul Sul e na mobilização das competências da diáspora. Não se trata de repetir fórmulas desenvolvimentistas exógenas, mas de afirmar projetos construídos a partir das realidades africanas e afrodiaspóricas. 

Participação brasileira

Esse conjunto de proposições fez do 9º Congresso um espaço politicamente potente. No entanto, Lomé também revelou contradições e limites, especialmente no que diz respeito à participação institucional do Brasil. Apesar de uma expressiva delegação da sociedade civil brasileira, composta por intelectuais, militantes, gestores culturais e lideranças comunitárias, observou se um conflito evidente de comunicação e organização entre os governos do Togo e do Brasil. 

Esse desencontro resultou em uma baixíssima presença de autoridades brasileiras no Congresso. Tivemos a participação da Embaixadora Maria Laura da Rocha, Secretária-Geral das Relações Exteriores, que esteve presente na cerimônia de abertura e se retirou logo em seguida. A chefia da delegação brasileira ficou a cargo do presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, cuja presença foi constante ao longo do evento, e seguida de uma forte e importante fala sobre a realidade brasileira.  

A ausência de uma delegação governamental mais ampla gerou insatisfação entre organizadores, delegações africanas e setores da própria sociedade civil. O Brasil, que inicialmente seria o país homenageado do Congresso, acabou perdendo essa posição. A homenagem foi transferida para a Colômbia, que compareceu com uma delegação de alto nível e contou com a presença marcante da Vice-Presidenta Francia Márquez, cuja trajetória política e simbólica dialoga profundamente com as pautas do pan africanismo, da justiça racial e da defesa dos territórios. 

A presença de Francia Márquez deu outro tom ao Congresso. Sua fala, sua escuta e sua articulação política evidenciaram o que está em jogo quando um Estado assume, de forma consequente, o compromisso com a agenda panafricana e afrodiaspórica. A comparação foi inevitável e desconfortável. Não se trata de desqualificar os esforços do governo brasileiro em outras frentes, mas de reconhecer que, em Lomé, o Brasil esteve aquém de seu potencial e de sua responsabilidade histórica. 

Esse episódio revela algo mais profundo. O pan-africanismo não se sustenta apenas em discursos ou símbolos. Ele exige coordenação política, coerência institucional e capacidade de diálogo entre Estados e sociedade civil.

A ausência brasileira em Lomé não apaga o papel estratégico do país, mas lança um alerta. Sem uma política externa consistente para África e diáspora, corremos o risco de perder espaços construídos ao longo de décadas. 

Ao mesmo tempo, a forte presença da sociedade civil brasileira demonstra que o pan-africanismo segue vivo e pulsante no país. Intelectuais negros e negras, pesquisadores, artistas e militantes seguem produzindo pensamento crítico, articulando redes e construindo pontes com o continente africano. O Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo, assim como tantas outras iniciativas, faz parte desse movimento que insiste em pensar o mundo a partir do Sul e de nossas experiências históricas. 

Pan-africanismo do século 21

Lomé não foi um ponto de chegada. Foi uma encruzilhada. A Carta de Lomé aponta caminhos, mas sua implementação dependerá de vontade política, de mobilização social e de capacidade de articulação transnacional. Para o Brasil, o desafio é claro. Ou assume de forma consequente seu lugar no debate panafricano e afrodiaspórico, ou seguirá oscilando entre o reconhecimento simbólico e a ausência concreta. 

Volto de Lomé com a convicção de que o pan-africanismo do século 21 não será construído apenas por Estados. Ele seguirá sendo impulsionado por mulheres, jovens, intelectuais, comunidades tradicionais e movimentos sociais. Mas também sei que, sem o engajamento efetivo dos governos, muitas das propostas permanecerão no papel. 

A Bahia nos ensinou, em 2024, que é possível articular Estado e sociedade civil em torno de uma agenda comum. Lomé nos mostrou que ainda há muito a fazer. O futuro do pan africanismo passa por essas disputas, por essas ausências e por essas presenças. Cabe a nós decidir de que lado da história queremos estar. 

*Publicado originalmente no Brasil de Fato

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Panafricanismo, descolonização e a encruzilhada africana no século XXI https://pensamentonegro.com.br/2025/12/19/panafricanismo-descolonizacao-e-a-encruzilhada-africana-no-seculo-xxi/ https://pensamentonegro.com.br/2025/12/19/panafricanismo-descolonizacao-e-a-encruzilhada-africana-no-seculo-xxi/#respond Fri, 19 Dec 2025 20:18:46 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2904

Por Richard Santos e Maria do Carmo Rebouças dos Santos*

A ideia de Congresso Pan-Africano carrega uma longa genealogia. Desde a Conferência Pan-Africana de Londres, em 1900, organizada por Henry Silvester-Williams, passando pelos congressos organizados por W E B Du Bois no início do século XX, pelo Congresso de Manchester, em 1945, e pelos encontros realizados no continente africano após os processos de independência, o panafricanismo sempre operou como espaço de articulação entre pensamento e ação. Ele foi, ao mesmo tempo, uma crítica radical ao colonialismo e um projeto de futuro, ancorado na soberania política, na dignidade humana e na unidade dos povos africanos e afrodescendentes.

Lomé se inscreve nessa tradição, mas também revela seus limites. O congresso ocorreu durante cinco dias, contou com mais de 1000 participantes, com representantes de mais de 40 países africanos e da diáspora. Contudo, não passou despercebida a ausência de Chefes de Estado.

No caso da diáspora, a ausência de uma representação de alto nível governamental brasileira gerou desconforto entre a organização, mais ainda entre a sociedade civil brasileira. Apesar de uma expressiva delegação, composta por intelectuais, acadêmicas(os), militantes, gestoras(es) culturais e lideranças religiosas, a presença institucional de alto escalão do Estado brasileiro foi limitada. A ausência das Ministras da Igualdade Racial e da Cultura – pastas diretamente relacionadas à agenda do Congresso – produziu um ruído político que enfraquece a narrativa brasileira de liderança natural no eixo África-Diáspora. Ainda que a presença da Secretária-Geral do Itamaraty na abertura e do presidente da Fundação Cultural Palmares ao longo do evento tenham garantido representação formal, o sinal emitido foi de ambivalência, não de compromisso estratégico.

A delegação da Colômbia – única de alto nível entre os países da diáspora –, por outro lado, foi chefiada Vice Presidenta Francia Márquez. Sua participação teve forte impacto simbólico e político, evidenciando o peso de uma liderança negra, oriunda dos movimentos sociais, em um espaço panafricano.

A comparação foi inevitável. Não se trata de medir prestígio entre Estados, mas de reconhecer que o panafricanismo exige mais do que gestos simbólicos. Ele demanda coerência entre política externa, política interna e compromissos históricos com a luta antirracista e anticolonial. A presença de uma liderança negra oriunda dos movimentos sociais confere densidade política à participação colombiana e comunica, de forma inequívoca, prioridade estratégica. A oscilação brasileira em Lomé lançou dúvidas sobre a capacidade do país de assumir plenamente o papel que lhe é frequentemente atribuído no campo das relações África x Diáspora.

A Declaração Final do 9º Congresso, conhecida como Carta de Lomé, reafirma o panafricanismo como marco estratégico da emancipação africana no século XXI. O documento convoca os Estados africanos e as nações que abrigam populações afrodescendentes a formarem uma frente unificada em torno da reforma das instituições multilaterais, da luta por reparações e da construção de um desenvolvimento autocentrado e endógeno. A Carta reconhece explicitamente os crimes históricos da escravidão, do tráfico transatlântico, da colonização e do apartheid, e afirma a justiça reparatória como fundamento incontornável da ordem internacional que se deseja construir.

Entre seus pontos centrais, a Carta de Lomé propõe a criação de um Observatório Pan Africano da Justiça Reparatória e da Luta contra o Racismo, a restituição de bens culturais africanos saqueados, a correção das representações cartográficas coloniais e a ampliação da representação africana nos organismos internacionais, em especial no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O texto também enfatiza a centralidade da filosofia Ubuntu, da valorização dos saberes endógenos e do papel das mulheres, da juventude e dos movimentos sociais na reinvenção do panafricanismo.

No entanto, Lomé não ocorreu em um vazio político. No início de dezembro de 2025, poucos dias antes do Congresso, outra conferência de grande relevância foi organizada pela União Africana. A Conferência Internacional sobre os Crimes do Colonialismo na África foi realizada em Argel, na Argélia, reuniu chefes de Estado e representantes africanos, resultando na chamada Declaração de Argel. Esse documento, ao mesmo tempo que dialoga com Lomé, radicaliza a agenda da descolonização africana. A Declaração de Argel afirma, de maneira mais explícita, a necessidade de ruptura com as estruturas herdadas do colonialismo, denuncia as formas contemporâneas de dominação econômica e financeira e reivindica uma soberania africana que não seja apenas formal, mas material.

Enquanto a Carta de Lomé aposta na reforma das instituições multilaterais existentes, a Declaração de Argel sugere que tais instituições podem ser, em si mesmas, parte do problema. Ela questiona a capacidade real do sistema internacional de promover justiça e equidade em um contexto em que as antigas metrópoles coloniais seguem exercendo controle sobre fluxos financeiros, cadeias produtivas, regimes monetários e circuitos culturais. Nesse sentido, Argel introduz um tom mais confrontacional e menos conciliatório que Lomé.

Esse descompasso revela uma encruzilhada histórica. Os governos africanos e a própria União Africana se encontram diante de um dilema estratégico. De um lado, há o reconhecimento crescente de que o colonialismo não é apenas um fato do passado, mas uma estrutura que se reproduz no presente por meio da dependência econômica, da subordinação tecnológica e da hegemonia cultural. De outro, há a dificuldade concreta de romper com essas estruturas sem enfrentar custos econômicos, políticos e diplomáticos elevados.

Experiências recentes ilustram essa tensão. Países como Burkina Faso e Mali têm ensaiado caminhos alternativos, questionando abertamente a presença militar e a influência política de antigas potências coloniais, em especial a França. Esses movimentos, ainda que heterogêneos e atravessados por contradições internas, expressam um cansaço profundo com a lógica da dependência e uma busca por maior autonomia estratégica. Ao mesmo tempo, enfrentam isolamento internacional, sanções econômicas e narrativas que os enquadram como ameaças à ordem regional.

Em contraste, a posição expressa pelo presidente da União Africana e presidente de Angola, João Lourenço, aponta em outra direção. Em declarações públicas[1], Lourenço afirmou que os países colonizadores jamais teriam capacidade de pagar o justo valor das reparações e buscou tranquilizar Portugal quanto à inexistência de riscos imediatos nesse campo. Segundo ele, a discussão sobre reparações não deveria ser conduzida de forma a criar tensões desnecessárias com as antigas metrópoles.

Essa posição gerou reações críticas no campo intelectual e jornalístico africano. A jornalista Luzia Moniz, em artigo publicado no Novo Jornal[2], questionou duramente a postura do governo angolano, argumentando que ela esvazia a agenda africana de descolonização e reparação ao se subordinar aos interesses das antigas potências coloniais. Para Moniz, negar a centralidade das reparações é, em última instância, negar a própria história de violência que estruturou os Estados africanos contemporâneos.

Essas divergências não são meramente retóricas. Elas expressam projetos distintos de África e de futuro. Lomé, Argel, Bamako e Ouagadougou não apontam necessariamente para direções convergentes.

A posição estabelecida em Lomé está em linha com o pensamento de Kwame Nkrumah cuja visão de panafricanismo concebe a descolonização como um processo político-institucional de longo prazo, cujo eixo central é a unidade africana organizada entre Estados soberanos, orientada para a construção de uma soberania continental coordenada no interior do sistema internacional.

A visão instituída na Carta de Aregel, vincula-se a uma ideia de panafricanismo baseada na visão de Thomas Sankara. A linha sankarista do panafricanismo entende a descolonização como um processo de ruptura política, econômica e cultural, que exige o enfrentamento direto às estruturas herdadas do colonialismo e do neocolonialismo, mesmo ao custo de isolamento internacional e conflito com as potências centrais.

Concretamente, o que está em disputa é se a descolonização será conduzida como um processo negociado, gradual e institucional, ou como uma ruptura mais profunda com a ordem internacional herdada do colonialismo.

Lomé e Argel, lidas em conjunto, não oferecem respostas prontas. Elas expõem fissuras, dilemas e contradições. A África contemporânea se encontra diante da tarefa histórica de romper com as metrópoles coloniais sem reproduzir novas formas de dependência. Como fazê-lo permanece uma questão em aberto. O que parece claro é que não haverá descolonização possível sem enfrentar o tema das reparações, da soberania econômica e da autonomia cultural.

Nesse cenário, a diáspora africana assume um papel estratégico. Ao transitar entre continentes, línguas e sistemas políticos, ela tensiona tanto as antigas metrópoles quanto os Estados africanos. A Conferência da Diáspora Africana nas Américas, realizada em Salvador, mostrou que as populações afrodescendentes não estão dispostas a ocupar um lugar subalterno no projeto panafricano. Sua intervenção desloca o debate da esfera estritamente estatal e recoloca a descolonização como uma tarefa coletiva, transnacional e intergeracional.

Para o Brasil, essa encruzilhada africana tem implicações diretas. O país ocupa uma posição singular, por sua história, por sua demografia e por sua inserção internacional. Oscilar entre o protagonismo simbólico e a ausência política, como ocorreu em Lomé, enfraquece sua capacidade de interlocução com a África e com a diáspora. Mais do que participar de conferências, o Brasil precisa definir com clareza de que lado dessa encruzilhada pretende se posicionar.

Entre Lomé e Argel, entre Nkrumah e Sankara, entre reforma e ruptura, a África contemporânea busca caminhos para afirmar sua soberania em um mundo em crise. O panafricanismo permanece como horizonte, mas seus sentidos, estratégias e limites estão abertamente em disputa. Reconhecer essa disputa é o primeiro passo para que a descolonização deixe de ser promessa e se torne prática histórica.

Richard Santos é escritor, pesquisador, docente e extensionista da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde atua como professor nos Programas de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais e em Estado e Sociedade. Possui Pós-doutorado em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Coordena o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo. Diretor Regional Nordeste da INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Foi um dos relatores da Conferência da Diáspora em Salvador e participou da Conferência de Lomé. Autor do livro “Maioria Minorizada: um dispositivo de racialidade”.

Maria do Carmo Rebouças dos Santos é Professora de Direito da Universidade Federal do Sul da Bahia. Doutora em Desenvolvimento Sociedade e Cooperação Internacional. Coordenadora do Observatório Igualdade Étnico-racial. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo UFSB/CNPq. Foi advogada do International Human Rights Law Group, nos EUA. Foi advogada especialista da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e da Relatoria sobre os Direitos dos Afrodescendentes e contra a Discriminação Racial da OEA, nos EUA.  Membra da Rede de Mulheres Constitucionalistas da América Latina. Membra do Grupo Brazil Diaspora Global Impact, participou das Conferências de Salvador e de Lomé. Autora do livro “Guiné-Bissau: da independência colonial à dependência da cooperação internacional para o desenvolvimento”.

Referências

ARGÉLIA. Ministério das Relações Exteriores. Algiers Declaration. Argel, 2025. Disponível em: [https://www.mfa.gov.dz/press-and-information/news-and-press-releases/algiers-declaration](https://www.mfa.gov.dz/press-and-information/news-and-press-releases/algiers-declaration). Acesso em: 10 dez. 2025.

CONGRESSO PAN AFRICANO. Declaração Final do 9º Congresso Pan Africano de Lomé. Lomé, 2025. Disponível em: file:///C:/Users/Maria%20do%20Carmo/Downloads/DECLARATION-FINALE-DU-9eme-CONGRES-PANAFRICAIN-DE-LOME-ESPAGNOL%20(1).pdf Acesso em: 16 dez. 2025.

Carta de Recomendações da Diáspora Africana 30 de agosto de 2024, Salvador, Bahia Disponível em:  file:///C:/Users/Maria%20do%20Carmo/Downloads/Carta-Recomendacoes-Conferencia_Diaspora_Africana_PORTUGUS_Declataion-de-Bahia_Portugais_OK.pdf Acesso em: 16 dez. 2025.

MONIZ, Luzia. Tunda mu njila: Angola contra a agenda africana. Novo Jornal, 2024. Disponível em: [https://www.novojornal.co.ao/opiniao/detalhe/tunda-mu-njila-angola-contra-agenda-africana-36764.html](https://www.novojornal.co.ao/opiniao/detalhe/tunda-mu-njila-angola-contra-agenda-africana-36764.html). Acesso em: 10 dez. 2025.

OBSERVADOR. Países colonizadores nunca teriam capacidade para pagar o justo valor das reparações, defende João Lourenço. Lisboa, 23 jul. 2024. Disponível em: [https://observador.pt/2024/07/23/paises-colonizadores-nunca-teriam-capacidade-para-pagar-o-justo-valor-das-reparacoes-defende-joao-lourenco/](https://observador.pt/2024/07/23/paises-colonizadores-nunca-teriam-capacidade-para-pagar-o-justo-valor-das-reparacoes-defende-joao-lourenco/). Acesso em: 10 dez. 2025.

[1] Ver em: https://www.voaportugues.com/a/angola-nunca-vai-colocar-a-quest%C3%A3o-das-repara%C3%A7%C3%B5es-hist%C3%B3ricas-/7710843.html Visualizado em 16/12/2025

[2] Ver matéria em: https://www.novojornal.co.ao/opiniao/detalhe/tunda-mu-njila-angola-contra-agenda-africana-36764.html

*Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil

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Congresso Pan-Africano mobiliza África e diásporas para debater reformas nas instituições multilaterais e reparação histórica https://pensamentonegro.com.br/2025/12/04/congresso-pan-africano-mobiliza-africa/ https://pensamentonegro.com.br/2025/12/04/congresso-pan-africano-mobiliza-africa/#respond Thu, 04 Dec 2025 14:38:41 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2895

Em um momento em que o planeta é marcado por guerras, disputas tecnológicas e rearranjos geopolíticos, a África e suas diásporas se preparam para ocupar o centro da geopolítica global. Um ano depois da Conferência da Diáspora Africana nas Américas, realizada em Salvador (BA), agora é a vez de Lomé, no Togo, receber o 9º Congresso Pan-Africano entre 8 e 12 de dezembro. O encontro pretende redefinir o lugar da África e de suas diásporas na governança mundial, e discutir a reparação das injustiças históricas sofridas em decorrência da colonização e escravidão.

Sob o tema “Renascimento do pan-africanismo e o papel da África na reforma das instituições multilaterais: mobilizar recursos e reinventar-se para agir”, o Congresso é organizado pela República Togolesa em colaboração com a União Africana (UA), e faz parte da implementação da Agenda da Década 2021-2031 das Raízes Africanas e da Diáspora Africana.

Para Richard Santos, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) que foi um dos relatores do encontro de 2024 e estará no Togo também como conferencista, o “renascimento pan-africanista” proposto pelo Congresso passa pelos campos cultural, político e institucional. 

“Esse renascimento só fará sentido se enfrentar as heranças ainda ativas do colonialismo histórico e as novas configurações do neocolonialismo contemporâneo, hoje reatualizadas sob a lógica do neoliberalismo radical”, explica o professor, que também coordena o grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (UFSB/CNPQ). 

Reformar instituições multilaterais tem sido uma demanda constante de países do Sul Global, mas pouco avança em termos concretos. Nesse sentido, Richard ressalta que essa reivindicação, quando formulada apenas em termos diplomáticos, frequentemente se limita a pedidos de maior representatividade formal dentro de estruturas que permanecem intactas em sua lógica de funcionamento. Enquanto a perspectiva pan-africanista não se contenta com reformas superficiais nos mecanismos de governança global, mas propõe uma revisão estrutural das bases históricas, econômicas e raciais que sustentam esse sistema.

“A crítica às instituições multilaterais não se restringe à sua ineficiência ou à sua assimetria de representação. Trata-se de uma crítica radical à forma como essas instituições foram constituídas historicamente como instrumentos da colonialidade do poder, da divisão internacional racial do trabalho e da reprodução do capitalismo global em sua versão dependente e periférica”, detalha.

A primeira conferência pan-africana aconteceu em 1900, em Londres. Após este evento, o primeiro Congresso Pan-Africano foi organizado em 1919, em Paris, exaltando os ideais de dignidade, liberdade e desenvolvimento humano. As sete edições seguintes do Congresso Pan-Africano foram impulsionadas por participantes da diáspora e da África. O Congresso Pan-Africano de Lomé 2025 será o quarto realizado no continente e se insere nesta continuidade histórica. 

Do Brasil para Lomé 

O Brasil é o país com a maior população negra fora da África, de modo que ocupa uma posição singular nesse debate. Mas ainda está sub-representado na formulação das políticas pan-africanistas em escala global. Mas Richard lembra que ao longo do século XX e no século XXI, intelectuais, artistas e ativistas vêm tecendo importantes formulações. Na avaliação do professor, o que ainda falta ao Brasil é transformar esse capital histórico, demográfico e cultural em projeto estratégico de Estado, e não apenas em iniciativas pontuais da sociedade civil e da intelectualidade negra. 

“Vou ao Togo com essa expectativa: a de que o Brasil possa assumir, de modo mais consciente e estruturado, seu lugar como parceiro estratégico da África neste novo ciclo do pan-africanismo.”

Além de relator do encontro realizado em Salvador, Richard participou do processo de consolidação e entrega do documento final. Neste ano, o eixo central de sua contribuição como conferencista está ancorado na articulação entre Pensamento Negro Contemporâneo, epistemologias do Sul e práticas insurgentes de produção de conhecimento. 

O pesquisador defende que o pan-africanismo contemporâneo precisa recolocar no centro do debate não apenas a crítica ao colonialismo histórico, mas as novas arquiteturas do colonialismo tardio, do racismo estrutural globalizado, do capitalismo racial e das guerras cognitivo-simbólicas que operam na comunicação, na cultura e na educação.

“Compreendo o pan-africanismo não apenas como herança histórica, mas como projeto político radical de reconfiguração do mundo a partir do Sul Global. Um pan-africanismo capaz de tensionar as estruturas de poder global, de articular África e diásporas em chave estratégica, e de produzir alternativas concretas no campo da educação, da comunicação, das economias populares e das políticas públicas”, acrescenta.

Próximos passos

Ao final, o Congresso deve organizar documentos orientadores e inaugurar um ciclo de pressão política por reformas globais, com a diáspora ocupando papel central. Está previsto um documento de referência que apresenta a visão, os princípios fundadores e alguns projetos emblemáticos. Além de novas estratégias e recomendações sobre questões como a mobilização de recursos inovadores e parcerias para a África. Também se espera a elaboração de um documento de divulgação sobre as contribuições do Congresso Pan-Africano de Lomé para as populações.

No campo das reparações, Richard, que ainda nos ainda nos anos 1990 participou do Movimento pelas Reparações Já, quando o tema era tratado como uma utopia inviável, espera a consolidação de marcos políticos, conceituais e diplomáticos capazes de orientar a próxima década. 

“As reparações, para além de indenizações pontuais, precisam incidir nas estruturas profundas que organizam as desigualdades entre países e dentro das próprias sociedades: na economia, na educação, na comunicação, no acesso à terra, à tecnologia e ao poder político. Acompanhar esse processo será fundamental, mas minha expectativa é que este Congresso ajude a deslocar definitivamente o debate das reparações do plano moral para o plano estratégico das transformações estruturais”, conclui o professor. 

Se a capital baiana abriu um portal político para a diáspora brasileira, Lomé será o momento de projetar esse gesto em escala continental. Em meio a um mundo em transição, o Congresso Pan-Africano volta a afirmar que a África e seus povos não são margem, mas o centro estratégico do futuro.

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Selo Pensamento Negro Contemporâneo lança novo livro do diplomata Silvio Albuquerque https://pensamentonegro.com.br/2025/11/21/selo-pensamento-negro-contemporaneo-lanca-livro/ https://pensamentonegro.com.br/2025/11/21/selo-pensamento-negro-contemporaneo-lanca-livro/#respond Fri, 21 Nov 2025 21:32:33 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2887

O selo Pensamento Negro Contemporâneo, uma iniciativa do grupo de pesquisa homônimo da UFSB em parceria com a Editora Telha, lança neste Novembro Negro o livro Cidadanias Mutiladas, Dignidades Restauradas, de Silvio José Albuquerque e Silva, diplomata, escritor, tradutor e dramaturgo. A obra terá lançamentos presenciais no Rio de Janeiro (RJ), nesta sexta-feira (21), e em Salvador, na próxima quarta-feira (26), integrando a programação do Mês da Consciência Negra.

A publicação reforça o compromisso do selo em valorizar a produção intelectual negra no Brasil e na diáspora, ampliando debates sobre justiça epistemológica, dignidade humana e enfrentamento ao racismo, temas que atravessam tanto a trajetória do autor quanto a agenda do Pensamento Negro Contemporâneo.

Em Cidadanias Mutiladas, Dignidades Restauradas, Silvio reúne histórias reais, de pessoas conhecidas e anônimas, que enfrentaram o racismo, a misoginia, a xenofobia e outras formas de exclusão, reagindo com coragem e solidariedade. Inspirado por pensadores como Milton Santos, o autor propõe uma reflexão sobre a dignidade humana como fundamento da convivência democrática, e faz um convite à ação e à esperança diante da reemergência global de discursos extremistas.

Dono de importante lugar de fala na luta contra a discriminação racial e luta por igualdade de direitos, Silvio é o primeiro homem negro a liderar uma representação diplomática brasileira na Europa em um intervalo de um século. Com mais de três décadas de diplomacia, o escritor já chefiou a embaixada brasileira no Quênia, foi representante junto às Nações Unidas em Nairóbi, além de ter atuado em postos estratégicos como Colômbia, Chile e Canadá. Sua nomeação para Bruxelas foi aprovada pelo Senado em maio, com 44 votos favoráveis.

Segundo palavras do próprio autor, “o mundo de hoje voltou a ser habitado por muitos fantasmas do passado. A reemergência de ideologias extremistas, a manipulação do medo e o ódio a mulheres, afrodescendentes, povos indígenas, migrantes e membros da comunidade LGBTQIA+ exigem de todos perseverança na luta por direitos, igualdade e justiça. A profusão crescente de casos de racismo e discriminação racial no Brasil e no mundo nos leva a crer que o racismo jamais poderá ser eliminado, mas precisamos dar um basta nesse paradigma”. Para a jornalista Flávia Oliveira, a obra é “um apelo ao que resta de humanidade em nós”.

Sobre o selo Pensamento Negro Contemporâneo

Conduzido por Richard Santos e Maria do Carmo Rebouças, o selo integra a Editora Telha e articula produção acadêmica, literária e política voltada ao pensamento negro contemporâneo. A iniciativa nasce do grupo de pesquisa da UFSB e aposta na ampliação das narrativas produzidas por intelectuais negros, fortalecendo redes de conhecimento e outras formas de ler o Brasil.

O lançamento do livro de Silvio Albuquerque se soma a esse esforço editorial, reafirmando o lugar da escrita negra como instrumento de memória, resistência e elaboração crítica.

Lançamentos

Rio de Janeiro

Quando: 21 de novembro (sexta-feira), a partir das 18h

Onde: Livraria Leonardo da Vinci — Av. Rio Branco, 185, Centro

Salvador

Quando: 26 de novembro (quarta-feira), a partir das 15h

Onde: MUNCAB — Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Centro Histórico)

Serviço:

LivroCidadanias Mutiladas, Dignidades Restauradas

AutorasSilvio José Albuquerque e Silva

Editora: Telha (Pensamento Negro Contemporâneo)

Páginas: 122

Preço: R$ 45,00

Disponível para venda através do link

aqui.

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Richard Santos participa da II Semana do Hip Hop da UFRB em evento com presença de MV Bill https://pensamentonegro.com.br/2025/11/12/ii-semana-hip-hop-ufrb/ https://pensamentonegro.com.br/2025/11/12/ii-semana-hip-hop-ufrb/#respond Wed, 12 Nov 2025 21:24:44 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2809

Na última terça-feira (11), a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) realizou, em Cruz das Almas, a abertura da II Semana do Hip Hop da UFRB, promovida pelo programa de extensão Educa Rap. A mesa de abertura reuniu a Magnífica Reitora Prof.ª Georgina Gonçalves dos Santos, o Pró-Reitor de Extensão e Cultura Prof. Danillo Silva Barata, o Secretário de Juventude da Bahia, Nivaldo Millet, a Diretora-Geral da FUNCEB, Sara Prado, e a equipe do Educa Rap.

O evento teve como ponto alto a palestra do rapper, escritor e ativista MV Bill, mediada pelo professor e ex-reitor da UFRB Paulo Gabriel, que conduziu uma reflexão potente sobre juventude negra, racismo, políticas culturais e o Hip Hop como tecnologia social de transformação.

A atividade contou também com a presença do professor e pesquisador Richard Santos, coordenador do grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Amigo e parceiro de longa data de MV Bill, Richard participou da mesa de abertura e destacou o significado histórico do momento, não apenas pela presença do rapper, mas também pela coincidência simbólica de, naquela mesma noite, a Câmara dos Deputados ter aprovado o Projeto de Lei 5.660/2023, que institui o Dia Nacional do Hip Hop (16 de agosto) e a Semana de Valorização da Cultura Hip Hop.

Para Richard, a conquista parlamentar soma-se a uma trajetória de décadas em que o movimento se afirmou como expressão política, educativa e epistemológica. Ele lembrou que o rap sempre denunciou o genocídio da juventude negra e que a própria linha de pesquisa que desenvolve — voltada às “maiorias minorizadas” — nasceu dessa escuta das pedagogias das periferias.

O pesquisador também relembrou que ele e MV Bill integram a primeira geração do rap brasileiro, e juntos fundaram a primeira organização de Hip Hop formalizada com CNPJ no país, ainda nos anos 1990.

“O Hip Hop nos dá caminho, e esse caminho de insurgência e sublevação da ordem é o que faz o Educa Rap estar aqui há seis anos. Acreditar na nossa potência é o que fez nascer o Museu do Hip Hop no Rio Grande do Sul, o primeiro das Américas; é o que faz a UnB reunir hoje o acervo histórico do Hip Hop brasileiro, que será transformado em museu; e é o que fez a Câmara reconhecer a Bancada do Hip Hop. Entrar na universidade é também reformular esses espaços na perspectiva de construir um novo país, uma democracia de alta densidade. O Hip Hop faz a gente acreditar e seguir enquanto potência”, afirmou Richard.

Em sua fala, MV Bill reforçou a dimensão política e pedagógica do rap, contestando as leituras que o consideram apenas uma música “empobrecida”.

“Os críticos de música sempre acharam o rap uma música empobrecida porque a gente consegue fazer um rap em cima do palco sem nenhum instrumento, só com a palma da mão ou o beatbox. Mas ele tem uma lírica única, de muitas palavras por minuto. E para isso é preciso ter recurso. Se você sai da escola cedo, seu vocabulário é pequeno, e a magia do rap é desdobrar o assunto, é tocar nas pessoas”, destacou o rapper.

Bill também abordou o caráter político intrínseco do gênero, lembrando que “não há rap que não fale de política” e que as desigualdades enfrentadas nas periferias são expressões de escolhas políticas e econômicas do país. O artista defendeu ainda o papel das pessoas brancas antirracistas na luta contra o racismo, ressaltando que o lugar de contribuição, não do protagonismo.

“O Brasil é tão hipócrita, que aceita quando uma pessoa branca diz que a sociedade é racista, que a polícia age com recorte racial, mas se eu falo dizem que é mimimi, vitimismo. Então precisamos de pessoas brancas para levar esse pensamento adiante. Mas é muito importante que entendam seu lugar na luta: de contribuição, não de protagonismo. Hoje em dia, por exemplo, tem música que precisa avisar que o hip hop é de origem preta e latina. Se tá precisando lembrar é porque já se esqueceram”, ponderou.

A II Semana do Hip Hop da UFRB reafirma o compromisso da universidade com uma educação pública, antirracista e popular, reconhecendo o Hip Hop como campo de produção de conhecimento e de transformação social. O evento segue com rodas de conversa, apresentações artísticas e oficinas até o fim da semana.

Assista à mesa na íntegra aqui.

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Seminário na UFSB discute políticas públicas e relações étnico-raciais no sul da Bahia https://pensamentonegro.com.br/2025/11/11/seminario-na-ufsb-discute-politicas-publicas-e-relacoes-etnico-raciais-no-sul-da-bahia/ https://pensamentonegro.com.br/2025/11/11/seminario-na-ufsb-discute-politicas-publicas-e-relacoes-etnico-raciais-no-sul-da-bahia/#respond Tue, 11 Nov 2025 22:48:10 +0000 https://pensamentonegro.com.br/?p=2795

O campus Jorge Amado da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) recebeu, na última segunda (10), o seminário “Políticas públicas e relações étnico-raciais no sul da Bahia”, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER) em parceria com o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (GP-PNC).

A atividade reuniu estudantes, pesquisadores e representantes do poder público para debater os desafios e avanços das políticas voltadas à igualdade racial e à valorização da diversidade étnica na região. A mesa principal contou com as participações do professor Richard Santos (PPGER/UFSB), do deputado federal Bebeto Galvão e da vice-prefeita de Ilhéus (BA), Wanessa Gedeon, em uma roda de conversa sobre os caminhos possíveis para a construção de políticas públicas comprometidas com a justiça racial.

Além do debate, o seminário contou com lançamento de livros e uma exposição fotográfica, ampliando o diálogo entre arte, política e educação. O evento também marcou o lançamento do livro “Comunicação em Disputa – A luta pelo imaginário da América Latina na era Trump”, de autoria do professor Richard Santos, coordenador do PNC.

Na obra, o pesquisador, que também é candidato a reitor da universidade pela chapa UFSB Mais Viva, investiga como a hegemonia midiática, os algoritmos e o colonialismo digital moldam o imaginário social e reforçam desigualdades raciais e políticas, propondo uma comunicação comprometida com a justiça social e a reparação histórica. O livro convida leitoras e leitores a refletirem sobre os embates simbólicos e comunicacionais que definem as narrativas sobre a América Latina, e o papel das mídias na disputa por sentidos e representações.

Com iniciativas como este seminário, o Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo reafirma seu compromisso em articular pensamento crítico, produção acadêmica e ação social, fortalecendo o diálogo entre universidade, poder público e movimentos sociais na construção de políticas e práticas antirracistas no sul da Bahia.

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